Pacto

Por Dejovu em

Sob a sombra de uma pequena árvore
Deitado na grama fresca de orvalho
Perdido em devaneios tolos
E lunático em indagações efêmeras
Avistei o longe aquela pequena
A tal dos sonhos de juventude
A qual todo homem já desejou
Caminhava como que destraída
Passos largos, quase deslizantes
Ao sol claro daquele dia de verão
Procurando nos arbustos próximos
As doces pitangas de vez
Levava as pequenas frutas à boca
Deixando a polpa molhar-lhe os lábios
Perfeitos como só podiam ser
Matreiros como eram só os dela
Carnudos tal qual queria o Diabo
Uma brisa leve soprava sua pele
Que era clara e retocada de sol
Causava-me a impressão de ardor
Ou talvez fosse um delírio do meu corpo em fúria
O vento vinha dela a mim
Trazendo consigo o aroma de seus cabelos
Que formavam cachos escuros e rebeldes
E cheiravam açúcar e canela
Um misto de pecado e virtude
E que a mim atiçava a curiosidade
Sentei-me para melhor adimirar a bela
Ainda que de longe para não assustá-la
Mas aconcheguei-me em minha árvore
O quebrar da madeira a jovem ninfa desperta
Como uma presa ao avistar seu caçador
Levantei-me depressa, de ímpeto
Ela estática de longe só me fitou
Aquele breve momento se eternizou
E o vento só urgiu
Seus cabelos em frente a seu rosto de anjo
Seu longo vestido branco se agitou
Os olhos apertados para ver-me escacararam-se
E seus lábios mudos curvaram-se num sorriso
Inconsciente do que fazia caminhei aos tropeços
Meu corpo não sabia responder ao meu desejo
A poucos passos dela parei por nada
E só então pude ver seus olhos
‘Olhos de ressaca’ como já houvera dito outro
Ou ainda ‘olhos de cigana oblíqua e dissimulada’
Era a única maneira de descrever se olhar
Que gritava quase vivo, ainda que imóvel nos meu
Eram verdes como pequenas folhar primaveris.
Naquele momento nos inclinamos um para o outro
E aquilo para mim foi o fim
Mas para ela talvez o começo
Ali a presa era caçadora
O caçador tornou-se presa
E naquele ponto cego do mundo um pacto foi selado
Eu seria dela pra sempre
Mas não fazia com que ela fosse minha
Assim perdi minha vida
Por entregar-lhe minh’alma
E com o mais tolo dos sorrisos no rosto
Percebi então que eternamente condenado eu estava.

Autor: Walter Costa

Categorias: Reflexão

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