Porque os treinadores realmente treinam

Por Dejovu em

Estávamos no mês de julho. Aquele tinha sido um ano mais cansativo do que de costume, depois de um árduo período recrutando atletas e saindo de uma temporada particularmente difícil. Como principal treinador de futebol americano da faculdade Canisius, de Buffalo, Nova York, eu havia assumido uma tarefa quase impossível de realizar dois anos antes: coordenar um programa de futebol americano num lugar onde não havia existido nenhum por mais de 25 anos. Depois de pensar bastante e visitar o que parecia ser uma sucessão interminável de colegiais e casas de alunos, consegui reunir o melhor grupo de talentos promissores que eu já havia convocado.

De repente, fui tirado da reflexão que havia imposto a mim mesmo. Minha secretária informou que um rapaz insistia em me ver – ele não estava pedindo, mas insistindo em tom alto e atrevido. Perguntei a ela se ele parecia um “jogador de futebol” (grande, habilidoso e confiante).

– Não, ele parece um cara que está vindo para jogar, se divertir e, talvez, estudar de vez em quando – ela disse.

Pedi a ela para dizer ao garoto que eu iria vê-lo, e também descobrir em que posição jogava e dar-lhe um formulário para preencher. Ela voltou depois de trinta segundos.

– Ele tem 1,80 de altura, pesa 73 quilos e joga na defesa. Nunca vai conseguir.

Nossos dois jogadores de defesa pesavam mais de 102 quilos. Cada um deles tinha 1,90 e eram titulares havia dois anos.

Como qualquer técnico de futebol americano de faculdade pode confirmar, uma grande parte do nosso tempo é tomado por “pretensos” atletas que insistem em jogar até que, finalmente, chega a hora de aparecer para treinar. Recobrei meu ânimo para o treino costumeiro. Mas não havia maneira de me preparar para o que estava para acontecer. Não apenas para os próximos trinta segundos… mas para o resto da minha vida.

Eu estava a meio caminho do escritório quando fui saudado por uma avalanche de autêntico entusiasmo.

– Alô, treinador Brooks. Meu nome é Michael Gee. Soletra-se G-E-E. Aposto que nunca ouviu falar de mim. Mas vai ouvir,. eu garanto!

– Você está certo – respondi. – Não tenho idéia de quem você é ou, francamente, o que está fazendo aqui. Terminamos a convocação de jogadores e vamos começar a treinar em menos de seis semanas. Nossa lista está completa. Sinto muito, mas…

– Treinador, já me informei sobre isto. Futebol americano é uma atividade para os estudantes. Eu me candidatei à faculdade e fui aceito como calouro. Quero jogar no time e o senhor tem de deixar. Conheço as regras, treinador, mas deixe-me dizer por que posso ajudá-lo. Fui selecionado antes da temporada no ano passado, como jogador da seleção. Comecei a jogar, mas estava sempre cansado, fraco e não tinha muita força nas pernas. Fui ao médico e as notícias não foram boas. Eu tinha um tumor maligno na coxa. Mas está tudo bem agora, juro. O tratamento de quimioterapia e a reabilitação liquidaram com ele. Tenho me exercitado. Sei que posso ajudá-lo. Eu garanto! Posso até mesmo correr uma milha sem parar.

Tudo isso me pegou realmente de surpresa. Minha primeira resposta foi insistir em uma alta médica. Ele me deu. Perguntei, então, se seus pais concordavam. Ele me entregou uma carta deles. Ele me ganhou.

Na realidade, Michael Gee me ganhou pelos quatro anos seguintes. Para ser mais exato,- eu era um felizardo por poder contar com ele. Depois de três jogos, tornou-se titular. Levava o time a vitórias. Conseguia fazer com que a equipe parasse o adversário. Nosso inspirado líder tornou-se o capitão do time. Foi considerado um dos melhores jogadores do país e chegou a jogar na seleção! Além do mais, tinha um ótimo desempenho escolar e atuava em todos os setores do campus.

E Michael Gee saboreou a vida. Quando tive a felicidade de conquistar a 50ª vitória da minha carreira, foi o primeiro jogador a me cumprimentar. Quando derrotamos nosso maior adversário, ele me carregou nos ombros. Quando perdíamos um jogo difícil, era o primeiro a dizer:

Ei, o que é isso, treinador! É apenas um jogo.

Mike Gee foi a primeira babá do nosso filho e o tipo de rapaz que eu esperava que nosso filho se tomasse.

Sempre imagino o que o trouxe para a minha vida. Certamente não tenho a resposta, mas uma coisa posso afirmar: aprendi muito mais com ele do que algum dia ensinei a ele, e isso foi um presente – do tipo que realmente faz com que os treinadores continuem treinando.

Autor: Willim T. Brooks

Categorias: Metáforas

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