Um dia no hospital

Por Dejovu em

Acordei com a claridade do sol no rosto, rolei na cama e tentei reconciliar o sono, mas em vão.
Levantei, abri a janela e olhei céu; estava lindo, sem nuvens, tão azul que desejei ir à praia. Rapidamente fui ao banheiro, escovei os dentes, tomei banho e quando olhei o espelho me vi todo encaroçado. Os braços e pernas pareciam um cacto. Não coçava, mas fiquei assustado, principalmente quando a governanta arregalou os olhos e fez cara de nojo:
– Cruz credo, seu Paulo… Nem chega perto de mim… Isso é catapora!!!!
– Que catapora dona Lina? Parece que cheira! Já tive isso quando criança e fui vacinado. – Respondi sabendo que não mudaria de opinião.
– Sinto muito, seu Paulo, mas to indo embora… Me liga quando estiver bom… Xau!
Devo esclarecer que a chamei de “governanta”, para fazer uma média… Da última vez, quando irritado, a chamei de “macacolina” me processou e tive que dar dois meses de cesta básica para a Fundação Polívio Baiense.
Mesmo implorando para ficar, ela mudou de roupa, pegou a bolsa e largou a casa na maior bagunça, alegando “calamidade pública”.
Sem praia e sem governanta, passei o resto do dia na rede. Liguei a televisão, vi alguns filmes, mas não me concentrava em nada. A cada instante uma bolha pipocava, poc…poc. poc.
No final da tarde, quando já parecia uma espiga de milho, resolvi ir ao hospital.
Subi lentamente a rampa, entrei na fila e depois de algum tempo, fiz uma ficha, atendido por uma funcionária mais doente do que eu: reclamava de depressão. Acho que foi depois que recebeu o contracheque da Multiprof.
Preenchido o formulário, fui encaminhado à fila de espera. Tinha tanta gente que resolvi seguir o conselho da ministra Marta Suplicy: sentei na mureta, cruzei as pernas na posição yoga e, depois de muito meditar, descobri por que os usuários são chamados de pacientes…
Era quase meia noite quando fui atendido.
– Hummm, fez o médico. Olhou… Olhou e disse: – parece empertigo!
– Doutor… Disse eu – Empertigo sei que não é… Meu filho já teve e sei cuidar… E outra coisa: empertigo dá uma aguinha e onde escorre nasce outra. Não é meu caso!
Mas ainda em dúvida, ele chamou o outro médico, um jovem barbudo, com sotaque do interior paulista, da região que diz polca, polta.
– O que você acha?
– Não sei não… – Chegou bem perto e olhou atentamente o caroço: – Parece varicela ou empertigo!
– Empertigo o paciente já disse que não é… Mas se não é empertigo ou varicela, deixa ver… Disse o outro, retirando um livro de dentro da gaveta, a fim de dá um nome aos caroços.
– Deixa eu ver… Catapora não é… Varicela não é… Bexigas-doidas não é… Seu dedinho ia percorrendo os nomes e ao final, sem encontrar nada, fechou o livro e disse gentilmente: – Olha só meu senhor… Vou passar benzetacil e encaminhá-lo ao dermatologista, tudo bem?
– Tudo né… Fazer o quê?
Peguei o encaminhamento e fui para casa com a nádega doendo, da injeção. Retornei no dia seguinte, com mais caroços.
Cheguei cedo e fui a outro guichê, no prédio abaixo, completamente vazio. Apresentei o receituário à funcionária e disse alegrinho:
– Quero ir ao dermatologista!
A atendente, uma fofa toda de branco, fez cara de médica e respondeu:
– Marcar consulta só mês que vem!
No momento fiquei surpreso, mas depois lembrei do caos da saúde, a falta de tudo, inclusive de médicos e perguntei:
– Se pra marcar é só mês que vem… A consulta é pra quando?
– Três meses depois!
Ela parecia uma funcionária experiente e preparada as xingaduras, mas ao invés disso, levantei o braço e disse:
– Minha senhora… Até lá, esses caroços vão perder o prazo de validade e no dia da consulta não vai ter um para mostrar o médico!
– Sinto muito, senhor! Problema não é meu… E fechou o guichê, pendurando um pequeno cartaz: fui ao toalete!
Realmente não tinha mais o que discutir. O problema não era dela, não era do médico, muito menos do prefeito e cheguei à conclusão de que o problema era meu. Quem mandou ficar doente?
E pensando assim, sentei novamente na mureta, as pernas automaticamente se yogaram e meditei até sentir uma mãozinha bater no meu ombro. Abri os olhos e vi uma senhora idosa, baixinha e bem humilde, me dizer:
– Moço! Isso no seu corpo é intoxicação… O senhor abusou da comida!
Realmente lembrei que comi umas besteiras e prestei atenção no que dizia:
– Sabe o que o senhor faz?
E me receitou uma série de ervas naturais que segui a risca. Dois dias depois meus caroços… Bem, já não eram mais, estavam secos, a pele normalizada e me sentindo ótimo.
Peguei o telefone e liguei para a faxineira:
– Dona Lina? Já estou curado! Que? Quer retornar amanhã? De jeito algum, a senhora está despedida! A tá… Agora quer saber o porquê, né? Muito simples… Descobri que os caroços era alergia a empregada folgada!
Xau!

Autor: Walter Monteiro

Categorias: Crónicas e Textos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.