Turismo caseiro

Por Dejovu em

Uma boa terapia é, de vez em quando, ver a vida por outro prisma e olhar a cidade como se fosse à primeira vez. Reduz estresse, tem baixo custo e zera aborrecimentos. Seria mais ou menos como estivesse numa cidade estranha e saísse do hotel para conhecê-la.
Vou dar um exemplo: às vezes saio de casa como turista, pego a bicicleta e pedalo em direção à “vila” (centro da cidade). Normalmente começo pela igreja, tiro algumas fotos, enquadrando-a pelo ângulo da “Casa do Passado”, antiga “Casa do Futuro”.
Depois saio, dobro à esquerda, sentido prefeitura e pedalo rápido, até chegar à lagoa.
No Fórum, diminuo a velocidade e olho o prédio, com as pastilhas caindo da fachada. Faço a curva, subo a rampa da calçada e mais adiante paro na pousada.
Estaciono a bicicleta na árvore, entro no quiosque e sento numa das mesinhas do píer, para apreciar a vista da lagoa, principalmente o pôr-do-sol. Uma visão linda e com todo abandono do governo “cara nova”, ainda é o recanto mais belo da cidade.
Depois, retorno pelo aeroporto, dobro no Caracallas, cruzo com o Dedé, vindo da padaria, desvio do Juarez, com enorme guarda-sol, falando a quem passa: – Bom dia meu povo… Bom dia minha pova! E estaciono em frente à Casa da Cultura, palco dos grandes acontecimentos de Maricá.
Com olhar contemplativo, reparo a data do prédio: 1841, cento e sessenta e sete anos de história: primeiro como Prefeitura, Câmara de Vereadores, Cadeia Pública e agora Casa da Cultura e seu “museu dos horrores”, com exposição de um crânio, sua história macabra e algumas quincalharias, bem arrumadinhas, parecendo uma sucata de fundo de quintal.
Sinceramente, prefiro visitar o antiquário do Uilians.
Mas fora isso, só o prédio vazio já é maravilhoso e, lá dentro, no velho salão de tábuas corridas, lembro os anos oitenta e os debates dos grandes vereadores, como Toninho Cotó, “homem de um braço só que valia por dois”, Istinho, Batuta, Jairo Moro, Aldemir, Uilton Viana e outros, uns falecidos e os incompetentes, esquecidos.
Claro, alguns são lembrados, como o Gilson, com sua memorável frase: “a faca de dois legumes” e Toninho, das ruas “cascaralhadas”.
Com tantas recordações, surgiu o desejo de visitar a Câmara atual, assistir os debates dos vereadores, conhecer seus projetos sociais, aplaudir a seriedade nas licitações, no dinheiro público, e por fim, ouvir algum que fale errado, até porque interior sem Edil “analfa”, o povo não fica bem representado.
Mas, diante desse legislativo “internacional”, com representatividade na Espanha, teria que me reciclar e, para não cometer “gafe”, pensei em consultar o Nory.
Só para esclarecer, Nory é o maior freqüentador da Câmara municipal. Nos seus cinqüenta anos de plenária, só perdeu duas sessões legislativas, assim mesmo por falta dos vereadores.
Motivado pelo tema, peguei a bicicleta e fui procurá-lo nos arredores, encontrando-o perto do colégio Joana Benedita. Vinha de bicicleta, com a camisa do grêmio, quando o abordei:
– Nory, foi bom te encontrar…
– Sei…
– To querendo assistir uma sessão na câmara e preciso de umas “dicas”.
Ele me olhou desconfiado, levantou a cabeça e foi direto ao assunto:
– Primeiro você dá o nome na entrada… Fez uma pausa, pensou um pouco e continuou: – Só que tem uma coisa que ia esquecendo… Antes de entrar, cuidado com o aparelho que pega ladrão…
– Aparelho de pegar ladrão? Repeti meio intrigado.
– Sim… É um aparelho igual de banco… Se passar com alguma nota superfaturada o aparelho eletrônico apita e os seguranças vêm em cima!
– Cruz credo! Mas agora tem isso?
– Claro! Ta pensando que é como antigamente? Hoje é tudo modernizado… Não pode entrar qualquer um ali não… Eles têm maior pavor de corrupto lá dentro!
Aé… E porque não apitou, quando aquele secretário que foi preso entrava e saía por ali?
Nory baixou a cabeça, pedalou e um pouco adiante, justificou:
– Sei lá… O aparelho devia ta com defeito…

Autor: Walter Monteiro

Categorias: Crónicas e Textos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.