Lembranças

Por Dejovu em

O velho estava sentado no sofá, olhar distante e ruminando pensamentos. De vez em quando alisava a cabeça, relaxava e adormecia, ressonando alto. Ao lado, sobre a mesinha, o telefone preto e à frente, a velha televisão e os programas sem graça, dos anos sessenta.
Uma brisa movia a cortina branca da janela e a luz suave entristecia a sala.
Na cozinha um assobio repetitivo da antiga canção “Mulher Rendeira”. Dona Lourdes não parava de limpar o fogão e lustrar as panelas. Era seu mecanismo defensivo aos pensamentos indesejados e o ritual de limpeza enfraquecia a possessão psíquica. Esquecia, por instantes, a preocupação com os filhos e o sofrimento do velho na sala.
Abriu o armário, retirou a vassoura e foi varrer o quintal. Enquanto juntava os detritos, lembrou os filhos brincando naquela área: seus gritos, sorrisos e choradeiras.
Caminhou até o latão e antes de despejar o lixo, encontrou um jornal antigo. Abriu-o e soletrou a notícia de um casal idoso morto por asfixia, no incêndio do asilo. Sensibilizada, chorou.
O velho, como um autômato, surgiu e a viu enxugando as lágrimas.
– Que foi?
– Nada… Respondeu, desviando o olhar.
Ele entrou no banheiro e urinou. Retornou lentamente, abotoando as calças e parou na porta da área. O rosto envelhecido, barba por fazer e o lábio inferior caído. Olhou para ela e disse:
– Não sei por que esses pensamentos não me largam…
– Tenha fé em Deus e tudo vai passar! Afirmou a esposa, confortando-o.
Vagarosamente retornou ao sofá, sentou-se na mesma posição e alisou novamente a cabeça. Ela veio para junto dele e acomodou-se ao seu lado.
– Esses pensamentos não param o tempo todo e isso me causa aflição….
A esposa, com olhar meigo, perguntou:
– E que pensamentos são esses?
– São vários… Mas o que mais me incomoda é sobre a morte. O que virá depois ou se tudo acaba, não existindo mais nada. Automaticamente alisou a cabeça e desabafou:
– Isso me apavora!
– Mas querido, tenta pensar em outra coisa. Olhe o dia, o azul do céu, o verde das plantas, os nossos filhos, netos, todos perfeitos, alegres… Isso não diz nada pra você?
– Quem dera… Esses pensamentos são mais forte do que eu. Se tentar rejeitá-los, pioram, possuindo-me totalmente. Silenciou, fixou o olhar distante e voltou a falar:
– Será que existe algum remédio que tira isso?
Ela, carinhosamente, segurou sua mão e disse:
– Então vai a um médico!
Ele a olhou pelo canto dos olhos e respondeu-lhe:
– E quantos já fui e nada adiantou? Eles não sabem nada!
Houve silêncio por alguns instantes, até que ele voltou a falar:
– Essa noite tive um sonho estranho… Sonhei que estava costurando e entrou um maluco aqui dentro, riu da minha cara e jogou tinta no paletó, pendurado no manequim.
– Sentiu medo?
– Claro! Agora fico pensando: Será que estou ficando maluco?
– Quem pensa que está ficando maluco, não tem nada de maluco. Maluco que é maluco, não tem nem tempo de pensar nisso. Respondeu para animá-lo.
Ele recostou-se, esfregou novamente a cabeça e silenciou, entregando-se aos pensamentos obsessivos. Ela retornou à cozinha, colocou a panela no fogo e assobiou, repetidamente, “Mulher Rendeira”.

Autor: Walter Monteiro

Categorias: Crónicas e Textos

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