Felizes na doença

Por Dejovu em

Não agüentava mais o calor e fui tomar banho no terraço. Abri o chuveiro, sentei no chão e deixei a água escorrer pelo corpo, até refrescar. Só percebi o cochilo quando o vizinho, com a cara no muro, gritou:
– Pauloooooo! Atende logo esse telefoneeeee!
Levantei zonzo, fechei o registro, me enrolei na toalha e atendi a chamada:
Alo?
– Você é um ingrato Paulinho! Disse uma voz abafada, como saísse do sarcófago.
– Eu ingrato? Mas quem ta falando? Perguntei sem ainda identificar a fala.
– Quem ta falando né, seu cabeção! Esqueceu da reunião da sua tia avó?
Iiiiii tia… Esqueci mesmo! Será que ainda dá tempo?
– Sei lá! Mas vamos assim mesmo!
Tia Matilde é irmã do meu avô, duas múmias do século passado e junto somam quase duzentos anos. Ele, graças a Deus sossegou, não sai da praça jogando cartas e ela inventou o Grupo dos Amigos Hipocondríacos e, uma vez por semana, se reúne para exibir remédios e falar de doenças.
E eu, sessentão, neto único, ainda a obedeço, enquanto tem jovem, filho único, rebelde.
Quando chegamos à casa de dona Therezinha a velharada estava em alvoroço. Mas foi só minha tia avó chegar e se fez silêncio; respeito pela idade e ser presidente do Grupo:
– Calma gente… Disse minha tia – Em primeiro lugar quero fazer as comunicações: – Como o tempo é curto, será dado apenas cinco minutos a cada uma expor suas doenças e mostrar os remédios. A seguir, quero que escreva no papel uma frase e deposite na urna. Ao final, será escolhida a vencedora por sorteio.
Depois abriu a sacola, retirou um embrulho e anunciou:
– Hoje quero apresentar meu novo medicamento e com uma surpresa!
Os olhinhos das velhinhas brilharam e ela revelou:
– E é de tarja preto!
Ouviu-se um “oooooh” e logo a seguir foi aplaudida.
Acenando com a mãozinha espalmada, pediu silêncio e continuou:
– Mas desejo a vocês, de coração, a mesma sorte que tive, fui tão convincente com Doutor Marcos Pires que não teve outra saída e receitou este remédio!
Entregou o frasco à primeira da fila, passar de mão-em-mão e enquanto o admiravam, ela continuou:
– Na programação do mês de novembro teremos uma visitação ao hospital Modesto Leal, ouvir lamúria de doentes e entrevistar o cirurgião, previamente agendado com o Secretário de Saúde.
Rapidinhos largaram o frasco sobre a mesa e aplaudiram:
– E agora, disse minha tia, vamos às histórias de hoje… Quem vai ser a primeira?
– Eu! Respondeu dona Therezinha, ficando em pé e falando as colegas
– Gente… Vocês não vão acreditar! Tenho sofrido tanto com dores difusas… Cada dia num lugar… É horrível! Já fiz todos os exames, mas ainda não dei sorte com um médico bom, todos dizem que não tenho nada!
– Infelizmente esses médicos são assim mesmo… Parece que combinam pra gente ficar de mão-em-mão.,. Disse dona Rosa, uma senhora obesa, no canto da sala.
– Pra ser sincera… Falou dona Zenaide – Nem procuro mais médico, meu farmacêutico, só no olhar, me receita ótimos remédios!
Minha tia indignada a repreendeu:
– Remédio de farmacêutico, dona Zenaide… Hê… Hê… Tenha dó, qual a graça em fazer isso? O gratificante é você ir num especialista, convencê-lo de sua doença e fazê-lo prescrever uma dose dupla de tarja preto!
A galera aplaudiu o puxão de orelha e alguém gritou:
– Isso aí Matilde! Você é minha idala!
Quando o silêncio voltou, a engraçadinha da dona Vera olhou para mim e perguntou:
– E você seu Paulo, qual a sua doença?
A pergunta me pegou de surpresa, estava longe e na hora, sem saber o que dizer, inventei qualquer coisa:
– Eu? Bem… Eu tenho uma unha encravada!
– Unha encravada, seu Paulo? Isso não é doença e sim desmazelo!
Antes que pudesse abrir à boca a velharada vaiou, como se saúde fosse cafona.
Minha tia, de cara feia, interrompeu a zoação.
– Bem gente deixe o Paulinho fora, ainda é um meninão e tem muito que aprender!
Depois pegou a urna e finalizou:
_ Atenção gente! Já é quase meio dia, hora de encerrar a reunião e vamos ao sorteio da melhor frase: – Paulinho faça o favor e retire um papelzinho!
Atendi ao pedido e entreguei a minha tia. Ela abriu e anunciou:
A sorteada foi… Maria Madalena Apedrejada de Souza, com a frase…
– O “design” do meu caixão será igual do Biotônico Fontoura!

Autor: Walter Monteiro

Categorias: Crónicas e Textos

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