Dando as regras

Por Dejovu em

“Eu quero um namorado, não um dono.” Uma grande amiga me disse apenas isso como justificativa para o fim do seu namoro de seis meses.
Se doeu, feriu, deu raiva ou alívio, ela não detalhou, mas foi o suficiente pra que eu entendesse que sua liberdade é a maior prioridade num namoro.
Liberdade é um assunto que quando cogitados na atmosfera romântica, se distorce e vira outra coisa, soa como promiscuidade.
Tirar um domingo pra caminhar sozinha é motivo de desconfiança. Sair apenas com as amigas é crime sem direito a fiança. Ao menor sinal, radares com sérios problemas de miopia apontam em sua direção e antes que você chame um advogado ou testemunha, já está sentenciada e cumprindo pena. Não é à toa que muita gente compara relacionamento com prisão. Neste caso, a asfixia é a mesma.
O conceito é este: juntos, quer dizer, fundidos. As opiniões individuais caem fora, e nesta hora um dos dois tem que se anular, adaptar-se às opiniões do outro. Nesse estágio, as vontades não são mais distintas e não compreende mais as duas partes. “Nós” é singular.
A fórmula não costuma variar muito, levam a dois finais mais que previsíveis: Em um deles. a mocinha perde amigos, opinião, liberdade e independência. Ganha um namorado, mas isto não quer dizer que ela tem companhia. Então ela se lamenta e até pensa em acabar, mas lhe falta coragem, e tendo em vista as perdas, se agarra a única coisa que acredita ter.
O outro final é a separação. É um pouquinho de dor, mas paga a vista. Ela vai chorar, mas em pouco tempo, já estará em cena de novo, com direito a par romântico e nova personagem.
Minha amiga quer um namorado, não um dono. Ela quer companhia, não uma presença asfixiante. Ela quer alguém que enxergue ela com todas as cores, e não apenas o cor de rosa. Ela quer um espaço onde ela possa opinar, continuar pagando suas contas. Ela quer manter as mesmas amizades, formar outras tantas. Ela quer, entre tudo isso que falei, alguém que a veja como um ser humano dotado de qualidades e características marcantes, que a aceite inteira e não tenha a menor pretensão de muda-la ou convence-la a isso.
Minha amiga caiu fora a tempo, mas eu sei que muitos e muitas ainda estão desfilando com suas focinheiras, sendo guiados pela insegurança e possessividade. Com rédeas bem curtas, diga-se passagem.

Autor: Luis Dutra

Categorias: Crónicas e Textos

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