¡Que no quiero verla!

Por Dejovu em

quero que você viaje sempre
e se não quiser voltar –que não volte.
busque outros programas
de preferência algum que seja mais extenso.
e vá visitar os teus museus
e viver nas regiões mais inóspitas:
que tal o Musée du Panthéon National Haïtien?
ou o Museu de Serra Leoa,
em Freetown?

afinal essas viagens
são um imperativo do trabalho.
e Rodin já dizia: o trabalho é tudo.

sem trabalho as pedras
continuariam pedras
–e os trançados da vida
não estariam aqui
no traço talhado.

o que importa é trabalhar
para transformar nosso olhar
mudar a direção da alma
e viver na concentração do corpo.

não dissipar nada
nem diluir o vinho
nem preservar a esquálida integridade
dos medos e do pouco pão
dividido.

resguardar apenas as funduras desse ser
habitante dos precipícios
e dos despenhadeiros,
neblina da minha alma,
entroncamento de caminhos.

não, eu não quero me habituar às tuas partidas
nem ás vestimentas cotidianas.
também não quero trajes apertados
nem sininhos no pescoço.

sei que a vida é uma contínua queimação
de etapas,
de imagens
e de clareiras.

Atropelos fazem parte
–e astrosbelos também.

mas quem perde ali
a aliança
não lamenta o fogo
cruzado
nem os colapsos
isolados.

questões sempre postas
nas mesas
nas camas
–e onde a resposta?

perguntas dissolvem-se em soluções
retilíneas.
mas se as retas não existem
e se já não existem os júbilos e as celebrações
o que fazer com essa angústia:
chamar Kierkegaard?
ou afinar os ouvidos para ouvir Holderlin
e a solidão absoluta de Rainer?

claro que a vida não é só proximidade.
encontro
desencontro
reencontro.

faz parte da vida esse capinar sozinho
faz parte da vida esse capinar
faz parte da vida
faz parte
faz

e o que é que eu fiz
diante de você naquela tarde
de desorientadas navegações
bússolas quebradas que retornam
retorcidas
caminhos da minha alma
em agonia

(se não fossem os meus erros
se não fossem os teus
se não fossem
será que essas feridas queimavam
desse jeito?)

não, não há nenhum touro em minha frente.
também não há nenhuma arena em minha memória.
mas por quê meu relógio permanece parado
a las cinco en punto de la tarde?

pura coincidência de um verso
que a-tingiu meu universo
de vermelho
vermelho como la sangre de Ignacio
sobre la arena.
ou como tuas unhas pintadas
que eu não quero ver
que eu não quero ver

o aceno de tuas mãos
em mais nenhuma despedida.

Autor: Rubens Jardim

Categorias: Cartas

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