Eu cantarei de amor tão docemente

Autor: Luís Vaz de Camões

Eu cantarei de amor tão docemente, Por uns têrmos em si tão concertados, Que dois mil acidentes namorados Faça sentir ao peito que não sente. Farei que amor a todos avivente, Pintando mil segredos delicados, Brandas iras, suspiros magoados, Temerosa ousadia e pena ausente. Também, Senhora, do desprêzo honesto De Ler mais…

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Enquanto quis Fortuna que tivesse

Autor: Luís Vaz de Camões

Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de um suave pensamento Me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho co tormento, Pera que seus enganos não dissesse. Ó vos que Amor obriga a Ler mais…

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Alma minha gentil, que te partiste

Autor: Luís Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Que já nos olhos meus tão puro viste. Ler mais…

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Vendaval

Autor: Fernando Pessoa

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração! Indômita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que Ler mais…

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Poema em linha reta

Autor: Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido Ler mais…

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O guardador de rebanhos

Autor: Fernando Pessoa

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia, O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para Ler mais…

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Mar português

Autor: Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos,quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Ler mais…

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Cartas de Amor

Autor: Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor Ler mais…

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Autopsicografia

Autor: Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de Ler mais…

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Amei-te por te amar

Autor: Fernando Pessoa

Amei-te e por te amar Só a ti eu não via… Eras o céu e o mar, Eras a noite e o dia… Só quando te perdi É que eu te conheci… Quando te tinha diante Do meu olhar submerso Não eras minha amante… Eras o Universo… Agora que te Ler mais…

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Resíduo

Autor: Carlos Drummond de Andrade

De tudo fica um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa Ficou um pouco. Fica um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura fica um pouco (muito pouco). Pouco ficou deste pó De que teu branco sapato se cobriu. Ficaram Ler mais…

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Reconhecimento do Amor

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Amiga, como são desnorteantes os caminhos da amizade. Apareceste para ser o ombro suave onde se reclina a inquietação do forte ( ou que forte se pensava ingenuamente ). Trazias nos olhos pensativos a bruma da renúncia: não querias a vida plena, tinhas o prévio desencanto das uniões para toda Ler mais…

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O poema de sete faces

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, Ler mais…

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Necrológio dos desiludidos do amor

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Do meu quarto ouço a fuzilaria. As amadas torcem-se de gozo. Oh quanta matéria para os jornais. Desiludidos mas fotografados, escreveram cartas explicativas, tomaram todas as providências para o remorso das amadas. Pum pum pum adeus, enjoada. Eu vou, tu ficas, Ler mais…

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Legado

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei, tudo quanto senti? Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu minha incerta medalha, e a meu nome se ri. E mereço esperar mais do que os outros, eu? Tu não me enganas, mundo, e não te Ler mais…

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Canção amiga

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua Que passa por muitos países. Se não me vêem, eu vejo E saúdo velhos amigos. Eu distribuo um segredo Como quem ama ou sorri. No Ler mais…

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Ausência

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência Ler mais…

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A um ausente

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das Ler mais…

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Assanhamento

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Que venha o censo de 70 e com ele venha a recenseadora mais bacana, aquela que ao dizer, com voz de acúcar (a doce voz é a melhor senha): “Preencha direitinho este questionário, por favor”, tenha sempre dos homens a resposta: “Por você, minha flor, preencho tudo, sou capaz até Ler mais…

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Máquina do Tempo

Autor: Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos Ler mais…

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Além da Terra, Além do Céu

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Além da Terra, além do Céu, no trampolim do sem-fim das estrelas, no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas. Além, muito além do sistema solar, até onde alcançam o pensamento e o coração, vamos! vamos conjugar o verbo fundamental essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas e do medo Ler mais…

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A Folha

Autor: Carlos Drummond de Andrade

A natureza são duas. Uma, tal qual se sabe a si mesma. Outra, a que vemos. Mas vemos? Ou é a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou, para ser senhor de uma fechada, sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de Ler mais…

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Ter ou não ter namorado

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Ler mais…

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Versos Íntimos

Autor: Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O Ler mais…

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Adeus, meus sonhos!

Autor: Álvares de Azevedo

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! Não levo da existência uma saudade! E tanta vida que meu peito enchia Morreu na minha triste mocidade! Misérrimo! votei meus pobres dias À sina doida de um amor sem fruto… E minh’alma na treva agora dorme Como um olhar que a morte Ler mais…

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