Memória

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão

Por Dejovu, Há

Trecho

Autor: Vinicius de Moraes

Quem foi, perguntou o Celo Que me desobedeceu? Quem foi que entrou no meu reino E em meu ouro remexeu? Quem foi que pulou meu muro E minhas rosas colheu? Quem foi, perguntou o Celo E a flauta falou: Fui eu. Mas quem foi, disse a Flauta Que no meu Ler mais…

Por Dejovu, Há

Ternura

Autor: Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Ler mais…

Por Dejovu, Há

Soneto de Separação

Autor: Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento Ler mais…

Por Dejovu, Há

Soneto de fidelidade

Autor: Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar Ler mais…

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Soneto ao caju

Autor: Vinicius de Moraes

Amo na vida as coisas que têm sumo E oferecem matéria onde pegar Amo a noite, amo a música, amo o mar Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo. Por isso amo o caju, em que resumo Esse materialismo elementar Fruto de cica, fruto de manchar Sempre Ler mais…

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Receita de mulher

Autor: Vinicius de Moraes

As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture em tudo isso (ou então que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). Não há meio-termo possível. É preciso que tudo isso Ler mais…

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Poética (I)

Autor: Vinicius de Moraes

De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros Que contem passo por passo Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço Meu tempo É quando…

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Pátria Minha

Autor: Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria. Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi: Não sei. De fato, não Ler mais…

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O que desejo pra você

Autor: Vinicius de Moraes

Desejo primeiro que você ame, E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, Mas se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos, Que mesmo maus e inconseqüentes, Sejam Ler mais…

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O dia da criação

Autor: Vinicius de Moraes

I Hoje é sábado, amanhã é domingo A vida vem em ondas, como o mar Os bondes andam em cima dos trilhos E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo Não há nada como o tempo para passar Foi muita bondade Ler mais…

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Não comerei da alface

Autor: Vinicius de Moraes

Não comerei da alface a verde pétala Nem da cenoura as hóstias desbotadas Deixarei as pastagens às manadas E a quem mais aprouver fazer dieta. Cajus hei de chupar, mangas-espadas Talvez um pouco elegantes para um poeta Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta Que acredita no cromo das saladas. Ler mais…

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Libelo

Autor: Vinicius de Moraes

De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar – e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar? E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, Ler mais…

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A rosa de Hiroxima

Autor: Vinicius de Moraes

Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rosas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Ler mais…

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A que há de vir

Autor: Vinicius de Moraes

Aquela que dormirá comigo todas as luas É a desejada de minha alma. Ela me dará o amor do seu coração E me dará o amor da sua carne. Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela Ler mais…

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A morte

Autor: Vinicius de Moraes

A morte vem de longe Do fundo dos céus Vem para os meus olhos Virá para os teus Desce das estrelas Das brancas estrelas As loucas estrelas Trânsfugas de Deus Chega impressentida Nunca inesperada Ela que é na vida A grande esperada ! A desesperada Do amor fratricida Dos homens, Ler mais…

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Vou-me embora pra Passárgada

Autor: Manoel Bandeira

Vou-me embora pra Passárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Passárgada Vou-me embora pra Passárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha Ler mais…

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Testamento

Autor: Manoel Bandeira

O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros – perdi-os… Tive amores – esqueci-os. Mas no maior desespero Rezei: ganhei essa prece. Vi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado No meu olhar fatigado, Foram terras que inventei. Ler mais…

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Recife

Autor: Manoel Bandeira

Há quanto tempo que não te vejo! Não foi por querer, não pude. Nesse ponto a vida me foi madrasta, Recife. Mas não houve dia em não te sentisse dentro de mim: Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne, Recife. Não como és hoje, Mas como eras Ler mais…

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O bicho

Autor: Manoel Bandeira

Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.

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No vosso e em meu coração

Autor: Manoel Bandeira

Espanha no coração No coração de Neruda, No vosso e em meu coração. Espanha da liberdade, Não a Espanha da opressão. Espanha republicana: A Espanha de Franco, não! Velha Espanha de Pelaio, Do Cid, do Grã-Capitão! Espanha de honra e verdade, Não a Espanha da traição! Espanha de Dom Rodrigo, Ler mais…

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Do que me dissestes

Autor: Manoel Bandeira

Do que me dissestes, alma fria, Já nada vos acode mais?… Éramos sós… Fora chovia… Quanta ternura em mim havia (Em vós também… Porque o negais?) Hoje contudo nem me olhais… Pobre de mim! Porque seria? Acaso arrependida estais Do que dissestes? É bem possível que o estejais… O amor Ler mais…

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Assim a vida nos afeiçoa

Autor: Manoel Bandeira

Se fosse dor tudo na vida, Seria a morte o sumo bem. Libertadora apetecida, A alma dir-lhe-ia, ansiosa: – Vem! … E a vida vai tecendo laços, Quase impossíveis de romper: Tudo que amamos são pedaços vivos de nosso próprio ser A vida assim nos afeiçoa, Prende. Antes fosse toda Ler mais…

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Antologia

Autor: Manoel Bandeira

A vida não vale a pena e a dor de ser vivida. Os corpos se entendem mas as almas não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Vou-me embora pra Passárgada! Aqui não soi feliz. Quero esquecer tudo: – A dor de ser homem… Este anseio infinito Ler mais…

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Quem diz que o amor é falso

Autor: Luís Vaz de Camões

Quem diz que Amor é falso ou enganoso, ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piedoso; Quem o contrário diz não seja crido: Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens e inda Ler mais…

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Mudamse os tempos

Autor: Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o Mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o Ler mais…

Por Dejovu, Há