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Os impulsos humanos

 

Já falei em crônica antiga sobre os mistérios do nosso cérebro, um verdadeiro mundo à parte e que os obsessivos cientistas estão quebrando a cabeça para compreendê-lo.
Pois bem, a respeito destes mistérios, todos nós conhecemos, até de experiência própria, que volta e meia sentimos impulsos estranhos e inadequados socialmente. Falo dos impulsos leves, inocentes, que, acredito eu, não trazem mal à humanidade.
Nem os sábios filósofos, os chamados amantes da sabedoria, escapam a esses impulsos. O filósofo Juarez, tão citado por mim, já me confidenciou, com o rosto corado de vergonha, sentir um impulso irresistível para cantar, no mais alto som que possa, imitando o tenor Pavarotti, a eterna canção Sole Mio, dentro de um restaurante cheio de gente estranha. Segundo me disse, vem resistindo ao danado do impulso, mas não sabe até quando...
Meu pai mesmo, homem dos mais sérios que conheci na vida, não resistia ao impulso de dar um grito enorme, aquele grito primal das cavernas, quando estava dentro de um ônibus apinhado de gente, mas só quando ele se encontrava no banco traseiro do veículo. Os passageiros levavam um susto aterrador e depois caíam na gargalhada. Nós, da família, morríamos de vergonha e ele se divertia com a sua travessura.
William James, o maior psicólogo americano, nos conta a história verídica de um senhor que ouvindo a ordem de “Sentido”, de um pelotão de soldados que marchavam na rua, largou o seu jantar, obedecendo à voz de comando e procurou se engajar no Exército. Como tinha passado da idade, acabou entrando no Exército da Salvação!
Interessante, vejam só como é a vida, sou testemunha, junto com minha mulher, aqui mesmo em Miracema, de cena semelhante. Estávamos nós lanchando no antigo Bar do Zezinho e o garçon nos servia uma pizza, quando, de repente, passou um bloco de carnaval animadíssimo. O garçon na mesma hora largou o bandejão no meu colo e correu para o bloco feito louco, desaparecendo na multidão. E não voltou mais para o seu serviço. Disseram-me depois que o Zé Maria, é o nome dele, agora só aceita emprego que lhe dê total folga no carnaval, dada a sua absoluta impossibilidade de resistir aos folguedos de Momo.
Quem está me lendo agora, com certeza, estará se lembrando de fatos semelhantes e até pensando, quem sabe, nos seus esdrúxulos impulsos pessoais.
Soube da história de um homem pacato, honesto, que conversando com sua comadre, de repente, sapecou nela um beijo sensual, no que foi repelido prontamente e solicitado a dar a razão para tamanha intimidade. O pobre homem, atônito, também não entendia seu gesto e pedindo desculpas, apenas balbuciou que ele deveria estar naquele momento no mundo da lua. Até hoje o pessoal da cidade só o chama pelo ingrato apelido de Da Lua, que o deixa muito irritado.
Um dos maiores pintores da nossa época, talvez o maior, Salvador Dali, em Nova York, apedrejou uma vitrine de uma loja de alto luxo. Preso, e depois solto com pagamento de fiança, perguntado sobre o motivo de ter lançado uma pedra na enorme vidraça de cristal da loja, disse simplesmente: “Tive um impulso!”
É claro, satisfazendo a curiosidade mórbida dos meus leitores, que vou contar, para finalizar, o meu impulso predileto, que é a tentação quase irresistível de bater, com mão aberta, mas com força, numa cara bem rechonchuda, um rosto tipo do Jô Soares.
Certo dia, no meu ambiente de trabalho, mirei a cara de um colega possuidor de um rosto fantasticamente gordo, mas o amigo percebendo o meu intento, apesar de pessoa pacífica e avesso à violência, aplicou-me uma chave de braço, quase quebrando-o.
Às vezes, fico a imaginar que o meu dileto amigo Renato Mercante, dono de um jornal da minha cidade, onde ele bondosamente publica minhas crônicas, soube de alguma maneira desta minha impulsão, pois vejo que ele tratou de fazer diariamente longas caminhadas, perdendo o excesso de peso que possuía, emagrecendo, conseqüentemente, o seu rosto. Para não brigar comigo, caso eu não resistisse ao meu impulso, tratou logo de se atirar ao sacrifício da ginástica. Mas quero deixá-lo tranqüilo, pois depois que levei a chave de braço, meu impulso reprimiu-se, embora alguns me digam que nunca se sabe se num belo dia, zás, o impulso reaparece com força total.
2008/07/19 enviada por Gilberto Dantas

Autoria de Gilberto Dantas
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